26 novembro 2014

Gente vazia



Não me leva a mal, menina, não é que eu sinta falta de você, ou da tua voz, ou do teu abraço. Não é vontade de dormir embriagado com o teu cheiro, com o braço atravessado em tua cintura fina e os pés entrelaçados nos teus. Não são as tardes de domingo em que eu ficava brincando com os cachos louros do teu cabelo enquanto fingia assistir ao filme ruim que você havia escolhido. Não é pelo fato de eu conhecer todas as tuas cicatrizes e saber exatamente a travessura que conta a história de cada uma. Não tenho saudade do teu beijo que sabia me queimar ou me acalmar, tudo na hora certa. Nem da pontualidade do teu carinho, palavras e pirraças.



Veja bem, menina, não é saudade. Nem vontade de me prender de novo aos teus argumentos insensatos. Não é pelo conforto de repousar a cabeça em tua sombra enquanto podia saciar minha sede com tua saliva doce de menina “de vez”. Ainda lembro como você ficava bonita naquele pijama de personagens da Disney, e de como achava graça da tua irritação incrédula toda vez em que eu dizia isso. Mas é só lembrança. Juro que não preciso mais nem mesmo segurar a fúria e engolir em seco toda vez que imagino que pode existir outro homem passeando em tuas curvas e cachos, provando da tua sombra e lençóis.

Não é que eu queira ter você de volta, nem o que o tempo nos tornou deixaria. Mas queria sentir de volta algo que fosse de verdade, entende? Qualquer coisa um pouco mais quente que não passasse junto com o efeito do uísque. Os amores de uma noite até que divertem, mas no outro dia, eles não passam de amores da noite passada. E então só resta servir uma dose de ressaca com alguns cubos de sorrisos frouxos, num copo tão vazio quanto os olhos que me evitam. 

Quando acabasse o jogo de sedução, eu só queria ouvir algo inteligente, receber um cafuné sem compromisso, rir de uma piada fora de hora… Qualquer coisa que não deixasse essa sensação de game over, porque é difícil aceitar que isso é o melhor que as pessoas têm.

Sabe, menina, não tenho vontade de voltar a mergulhar fundo em ti, mas acho um tédio essa coisa de não sair da superfície. Afinal, depois que todo mundo vai embora e o copo já está seco, praias sempre me parecem todas iguais. Encantam, seduzem e divertem, mas chega uma hora que cansam. Gente vazia também.

Texto retirado de: Casal sem vergonha

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